Prontidão de missionário Ezequiel era uma pessoa extrovertida, de fáceis relações humanas. Tinha sido ordenado em 1981 e destinado, depois da ordenação, para um trabalho no mundo juvenil em sua própria terra. Estava começando a entrar nele quando um terremoto sacudiu o sul da Itália. Ele não teve dúvidas: aquele era o lugar do missionário. Deixou tudo e lá foi ele para socorrer as vítimas e ajudar na reconstrução.
A chegada em Cacoal, Rondônia Quando, em 1984, Padre Ezequiel Ramin chegou a Cacoal, encontrou comunidades consolidadas em todo lugar. Não teve dificuldade de se inserir. Com pouco mais de 30 anos, ele tinha o entusiasmo necessário para entrar logo na realidade e as experiências anteriores, feitas na vida, o habilitavam a ser um bom padre para todo aquele povo.
'Proibida a entrada!' Pouco tempo depois da chegada de Ezequiel a Cacoal, em uma região entre Mato Grosso e Rondônia, em terras ocupadas por 250 famílias, apareceu uma placa: 'Fazenda Catuva: proibida a entrada'. As terras que as famílias trabalhavam há mais de dois anos, bem relacionadas com os índios suruí, que podiam se dizer os únicos verdadeiros proprietários, estavam sendo reivindicadas por dois fazendeiros. Eles eram proprietários de 2.500 hectares e tentavam abocanhar 50 mil hectares, passando por cima tanto dos índios como das 250 famílias e de suas roças. Tudo começou com uma chegada discreta, mas depois vieram a placa, a cerca e os jagunços para não deixar dúvidas em relação às reais intenções dos fazendeiros.
Rotina de violências Em relação a tudo isso Padre Ezequiel mostrava-se profundamente incomodado. Ele dizia: 'Não aprovamos violências nem queremos reivindicações irreais. É irreal pedir comida para a própria família? Ou só quem é poderoso tem filhos que precisam comer? Aqui muita gente tinha terra, foi vendida. Tinha casa, foi destruída. Tinha filhos, foram mortos. Tinha aberto estradas, foram fechadas!'. Na Fazenda Catuva o confronto entre posseiros e jagunços começou a virar rotina. Os padres acompanhavam, realizando encontros com as famílias para orientá-las. A linha de ação era esta: que permanecessem na terra, mas evitando agressões e confrontos.
24 de julho de 1985 Às 5.30h da manhã do dia 24 de julho, Padre Ezequiel saiu, junto com o amigo Adilio de Souza, para a Fazenda Catuva. Quando chegaram ao posto indígena Lourdes, um funcionário da FUNAI quis impedir a passagem. Tinha ordem de não deixar passar ninguém. Mas chegou um carro vindo do interior da fazenda, com um pessoal desconhecido, pedindo que a entrada fosse liberada. Foi o que o funcionário fez. Os dois alcançaram a porteira sem qualquer problema. Chegaram rapidamente ao barraco onde se encontravam os posseiros, onze ao todo, que os aguardavam para acompanhá-los na vistoria da área. O acampamento dos jagunços estava muito próximo, a não mais de 100 metros de distância. Ezequiel e Adílio conversaram com os posseiros. Pediram que desocupassem a área porque a situação estava tensa. Ezequiel puxou da sacola a máquina fotográfica, tirou algumas fotos, inclusive da fazenda e dos jagunços. Adilio fez algumas anotações. Pouco depois das 11 horas, Ezequiel entrou no carro para pegar o caminho de volta...
Rajada de balas Depois de dois quilômetros, na saída de uma curva, teve o ataque. Sete homens armados, em posição de tiro, estavam esperando a passagem do carro. Dois deles abriram fogo. Veio uma primeira rajada de balas. Ainda dentro do carro P. Ezequiel foi atingido. Disse: 'Para, para pelo amor de Deus'. Depois saiu do carro, pelo lado do motorista, afastando-se dos atiradores. Adilio saiu em direção contrária, ganhando a mata. Ezequiel caiu uns 50 metros depois. Alguém chegou e descarregou nele a espingarda à queima-roupa.
Na madrugada seguinte... Adílio bateu na casa dos padres a uma hora da madrugada do dia seguinte. Estava ensangüentado e exausto. Contou o que tinha acontecido. Não sabia dizer se Ezequiel estava vivo ou morto... Era preciso correr para lá imediatamente. Na mesma hora os dois padres foram à delegacia: o delegado estava ausente e os policiais mostraram pouca disposição de ajudar. Os padres então avisaram o bispo e se dirigiram a Ji-Paraná, onde chegaram por volta das 4.00 horas. Finalmente às 8.00 horas, com mais dois carros da polícia na frente, saíram, e às 11.30 cruzaram a porteira da fazenda. Mais 5 minutos e chegaram ao local. O carro de Ezequiel estava ainda no meio da estrada, com as portas abertas, os vidros quebrados. O corpo logo foi avistado 50 metros adiante, caído à beira da estrada. Nenhum sinal de violência, a não ser as perfurações das balas e dos chumbos: havia sinais de um tiro de espingarda em pleno rosto; os braços abertos, como se tivesse sido crucificado.
A família quis o corpo, mas a camisa ensanguentada ficou em Cacoal Os padres estavam providenciando o enterro em Cacoal. Parecia-lhes lógico que o corpo do colega descansasse na terra que tinha recebido seu sangue. Mas chegou um telefonema da Itália: um superior informava que os pais e os irmãos queriam ter o corpo de volta, na Itália. A camisa ensangüentada de Padre Ezequiel ficou exposta na igreja matriz de Cacoal por muito tempo...