Era noite de Natal, hora já avançada: mais um Natal, nos meus 32 anos de África. Moisés, coordenador da comunidade de Omar, bem perto do grande rio Mecubúri, chegou batendo à minha porta, naquela noite límpida e cintilante de estrelas, na missão de Mirrote, em Moçambique, pedindo-me para eu ir administrar os últimos sacramentos à sua esposa gravemente doente, que não queria morrer sem receber, pela última vez, a Eucaristia, como viático para a grande viagem da eternidade.
Lá, fui eu, naquela hora da noite, também bater à porta do catequista Mateus, que morava ali perto, para ele me acompanhar. O catequista Mateus, desde longos anos, preparava os catecúmenos adultos para o Batismo; assim durante três anos e seis meses acompanhava e preparava esses candidatos, com catequeses e pelo testemunho de vida, para o grande dia do encontro com Jesus, pelo Batismo, pela Eucaristia, pelo Matrimónio e Crisma.
Então partimos com o velho Land-Rover e lá fomos pela mata adentro até à aldeia, onde morava a senhora Ana. A certa altura, a estrada de chão terminara: deixamos o carro e, a pé, por trilhas pedregosas, atravessando rios, subindo colinas e descendo vales, chegamos à casa da nossa doente. Graças a Deus, o nosso guia nos indicava bem o caminho, pois tantas vezes ele o tinha percorrido, de dia e de noite e já o conhecia quase de olhos fechados.
A senhora Ana estava gravemente doente, talvez uma malária, que se arrastava desde longa data, pois estava tão magra que mais parecia um esqueleto. Ainda tentei convencê-la para ir ao hospital, pois eu a levaria lá, até Namapa, a uns cinquenta quilómetros, mas ela não aceitou de jeito algum. Queria morrer assistida pela sua família e na sua casa: ' Padre, só quero morrer aqui e em paz', me disse ela na sua língua makua (miyano kinthuna okwa vava ni murethele). Depois de receber os sacramentos, com muita fé, uma grande alegria inundou o sua alma, alegria essa que até transparecia do seu rosto, iluminado pela luz daquela pequena fogueira, que os doentes, em África, costumam ter perto da sua cama, sobretudo na estação fria.
Depois de conversarmos e rezarmos juntos, despedimo-nos e voltamos para o carro, eu e o catequista Mateus. O Moisés queria acompanhar-nos, ao menos até ao carro, mas nós dissemos que não era necessário: já conhecíamos a trilha e assim ele ficou com a esposa, que estava precisando dele. Como as trilhas africanas parecem todas iguais e nos cruzamentos, sobretudo de noite, é um milagre escolher aquela certa, assim nos perdemos e nunca mais encontrávamos o carro: andamos e andamos e, de tempos a tempos, se escutava o rugido ameaçador do leão. Caminhar às escuras e no meio da mata, onde abundam animais ferozes e tantas serpentes é uma aventura perigosa e dá uma sensação tão intensa de medo, de insegurança e risco de vida, que nunca se consegue esquecer.
Imaginem a nossa alegria, quando no meio daquela escuridão de morte, escutamos, vindo de longe, trazido até nós pela leve brisa da noite, o som de atabaques: talvez alguma festa ou alguma cerimónia religiosa, própria da noite, e mais alegria sentimos ainda, quando vislumbramos a luz de uma fogueira, que segundo o costume, as pessoas acendem perto da casa para afugentar serpentes e animais ferozes, que podem atacar cabritos, galinhas e até pessoas, pela calada da noite. Estávamos salvos! Nos aproximamos de uma casa, batemos as palmas, dizendo “othi” (dão licença) e ouvimos o dono da casa dizer “othini”, mas, desconfiado, saiu de lança em mão e depois de nos apresentarmos e dizermos a razão da nossa presença, ele se acalmou e foi tão simpático que nos ofereceu água, bananas e amendoim.
O melhor ainda foi, quando nos indicou o caminho para chegar ao lugar, onde tínhamos deixado o carro e até se prontificou para nos acompanhar. Caminhou connosco uns quilómetros para evitar que nos voltássemos a perder. Ele, sempre de lança em mão, seguia à nossa frente. Finalmente chegamos ao carro e rapidinho chegamos em casa, cansados mas contentes, porque ajudámos a senhora Ana a sentir-se mais feliz e encontramos pessoas amigas, que nos acolheram e ajudaram, e uma luz que nos salvou, nos guiou e nos deu mais confiança, alegria e segurança na nossa caminhada.
No meio da floresta escura da vida, com tantas encruzilhadas e tantos perigos, aparece sempre uma Luz, a Aurora da vida nova, o Cristo Jesus. Se perdidos na vida, Ele vem ao nosso encontro e nos indica o caminho certo. Ele até caminha conosco, pelas estradas da nossa vida, que passam pelo encontro com os nossos irmãos mais pobres, os doentes e todos os excluídos desta nossa sociedade de consumo, e nos dá forças para sermos solidários e fraternos com todos, especialmente com os injustiçados e rejeitados pelo preconceito, pelo racismo e pelas classes dominantes e vivem mergulhados na mais profunda miséria material e espiritual.(Padre Martinho)